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Archive for the ‘Livros’ Category

Há tempos e tempos…

“A alma é uma borboleta, há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose…”

Rubem Alves

Há tempos que deixei de escrever no blogue BECRELENDO como forma de divulgar as atividades da Biblioteca e as novidades que vamos tendo.E tenho pena. Como outras bibliotecas,também eu entendi que os novos tempos  traziam com urgência as notícias de que o facebook era/é muito mais imediato e alastrava (e alastra) a muitas mais pessoas. E diz-se que é tão bom alastrar a mais pessoas…e que é tão mais eficaz chegar às casas dos nossos utentes e que é tão bom sentirmo-nos parte de uma comunidade, dando sentido ao que fazemos e procurando o sentido naquilo que fazemos.Talvez.

Só que, depois, descobrimos que os likes do facebook são insignificantes, mas tão insignificantes que, na verdade, distribuímos a esmo “gostos” no “face” e voltamos a cara ao outro no instante seguinte, fingindo não o conhecermos ou fingindo uma pressa inusitada para corrermos para insignificantes algos.

A pressa do facebook é a mesma pressa que colocamos na relação com os outros, trabalho epidérmico de superfície onde palavras como construção de afetos e sentido de pertença são de uma vacuidade hostil, quase fúnebre.

Escrevo hoje aqui no blogue BECRELENDO porque não quero escrever no facebook.Escrevo aqui hoje porque quero evocar a minha colega ELISA MARGARIDO que era uma mulher descomplicada, sã, alegre e, ainda por cima, leitora.

Lia, lia, lia e lia e falava de livros e de experiências de leitura, e aqueles seus olhos inquietos e risonhos descobriam em cada leitura partilhada mais um bocadinho daquilo que todos procuramos: o entendimento da nossa condição mortal e o contentamento com a parte que na vida nos cabe decidir…porque a outra…

A Elisa Margarido, professora de Geografia, mulher prática e também contemplativa, achava a mesma graça à floração da curgete, ao redemoinho atarantado do rouxinol à procura da parceira na primavera, à sinceridade nua das intenções e das palavras. A Elisa Margarido –  há que dizê-lo-  viu nos seus alunos o que muitos de nós- pais- ainda não víamos ou percebíamos porque o tempo dos pais e dos professores anda muitas vezes desencontrado.A Elisa ensinava a olhar para os jovens através do filtro do tempo em construção.O tempo de construção necessário a cada jovem .Um tempo em que, segundo ela, era preciso semear para depois colher, tal como a parábola bíblica do bom semeador que teimamos em não ouvir, cegos de egos, certezas e vaidades.Na verdade, o seu entendimento sobre a construção da identidade dos adolescentes era simples, verdadeiro e sábio e as suas observações surpreendiam-me pela franqueza e autenticidade.

Numa feira do livro da BECRE – onde ela marcava sempre presença- falámos  de livros, viagens e religião e ela, por esses dias, estava a ler uns preciosos contos Sufi, de Farid ud Din Attar, que eu não conhecia.Fez-se a promessa” Ana, vou-tos trazer!Tens que ler!”

E eu li, oh, se li!Li e reli, e compreendi nas palavras da personagem central desse conto uma das leis do universo : a morte, para os místicos,  é a visão da verdade suprema.

Elisa, a tua verdade, está aí.Diz tu ao derviche que eu também acredito que “Isto também passará!”e quando estivermos juntas trocaremos leituras.Até sempre.

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Bom 3º Período!

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Feliz Dia da Mulher!

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Sandro junqueira

 

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Passagem das horas

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei,

Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,

O coral das Maldivas em passagem cálida,

Macau à uma hora da noite… Acordo de repente…

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …

E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade…

A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol…

Dar-es-Salaam (a saída é difícil)…

Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagáscar…

Tempestades em torno ao Guardafui…

E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada…

E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo…

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…

Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…

Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,

Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir

E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,

Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,

Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,

Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,

Deste desassossego no fundo de todos os cálices,

Desta angústia no fundo de todos os prazeres,

Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,

Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.

Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei

Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,

Consanguinidade com o mistério das coisas, choque

Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,

Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,

Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,

A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,

A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,

E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos

Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,

E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,

Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.[…]

Fernando Pessoa

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O  Dia Nacional da Cultura Científica, 24 de novembro, foi instituído em 1997 para comemorar o nascimento de Rómulo de Carvalho (António Gedeão é o seu pseudónimo) e divulgar o seu trabalho na promoção da cultura científica e no ensino da ciência.

Fernando Pessoa, por Álvaro de Campos, escreveu em 1935 um poema sobre a relação entre a Matemática e a arte:

“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

O que há é pouca gente para dar por isso.

Oooo – ooooooooo – ooooooooooooooo

(O vento lá fora).”

A história da ciência e da arte é uma história de amor, encontros, desencontros e cumplicidades, de mãos dadas, muitas vezes, e também de mãos … na massa, apesar de tantas, tantas vezes nos quererem fazer crer o contrário.

A ligação entre ciência e arte pode ser encontrada desde sempre, temos como exemplo paradigmático Leonardo da Vinci, homem do Renascimento, que associava o seu trabalho de dissecação de corpos – às escondidas, primeiramente- ao trabalho de desenho dos nervos, tendões e músculos, muitos séculos antes das exposições polémicas que mostraram  – e mostram, atualmente, no Museu Menschen em BERLIM –  cadáveres humanos plastinados.

Escultor, arquiteto, cientista, músico e  pintor foram muitas as valências de Leonardo da Vinci. Este homem tocava todas as áreas do saber, fundia-as, aprofundava-as e relacionava-as-, num sincretismo próprio dos grandes espíritos curiosos e, ainda por cima, autodidatas.

 da Vinci nasceu  em 15 de abril de 1452 e morreu a 2 de maio de 1519. Apaixonado por anatomia, dissecou diversos animais (pássaros e cavalos, ovelhas, macacos, sapos, entre outros ) e, posteriormente, tendo obtido licença para tal realizou a atividade no Hospital Santa Maria Nuova, em Florença, no Hospital Maggiore, em Milão, e, finalmente, no Hospital do Santo Espírito, em Roma. Entre 1490 e 1515 dissecou mais de 30 corpos de homens e mulheres, tendo desenhado para cima de 200 gravuras de caráter anatómico.

Cinco séculos depois, em 2015, vamos falar de  biopinturas  (utilização de biofilmes como instrumento

artístico), divulgando um texto de Patrícia Noronha publicado no Instituto da Tecnologia Química e Biológica António Xavier 

biopintura 7

e que refere que estas biopinturas ” são obtidas através do crescimento, sobre papel de aguarela embebido em meio de cultura, de estirpes de leveduras previamente selecionadas. Neste caso podemos dizer que pintar torna-se sinónimo de inocular e o resultado final vai depender do crescimento das leveduras que é condicionado por diversos factores (meio de cultura, temperatura, tempo de crescimento, relações entre diferentes estirpes).

Patrícia Noronha, no seu interessantíssimo trabalho, vai-nos dizer que nos nossos dias são inúmeras as possibilidades para os artistas ( quiçá cientistas…) que queiram explorar outras técnicas e materiais,no campo da genética, da robótica, da computação.

Por fim, (e porque o post vai longo), nas inumeráveis relações entre ciência e arte há ” jóias” naturais como esta que aqui vos deixo sobre a qual só me apetece dizer, parafraseando Campos:

” Um ouriço do mar é tão belo como a Vénus de Milo

O que há é pouca gente para dar por isso.[…]

 

Retirado daqui

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