Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Março, 2017

Há tempos e tempos…

“A alma é uma borboleta, há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose…”

Rubem Alves

Há tempos que deixei de escrever no blogue BECRELENDO como forma de divulgar as atividades da Biblioteca e as novidades que vamos tendo.E tenho pena. Como outras bibliotecas,também eu entendi que os novos tempos  traziam com urgência as notícias de que o facebook era/é muito mais imediato e alastrava (e alastra) a muitas mais pessoas. E diz-se que é tão bom alastrar a mais pessoas…e que é tão mais eficaz chegar às casas dos nossos utentes e que é tão bom sentirmo-nos parte de uma comunidade, dando sentido ao que fazemos e procurando o sentido naquilo que fazemos.Talvez.

Só que, depois, descobrimos que os likes do facebook são insignificantes, mas tão insignificantes que, na verdade, distribuímos a esmo “gostos” no “face” e voltamos a cara ao outro no instante seguinte, fingindo não o conhecermos ou fingindo uma pressa inusitada para corrermos para insignificantes algos.

A pressa do facebook é a mesma pressa que colocamos na relação com os outros, trabalho epidérmico de superfície onde palavras como construção de afetos e sentido de pertença são de uma vacuidade hostil, quase fúnebre.

Escrevo hoje aqui no blogue BECRELENDO porque não quero escrever no facebook.Escrevo aqui hoje porque quero evocar a minha colega ELISA MARGARIDO que era uma mulher descomplicada, sã, alegre e, ainda por cima, leitora.

Lia, lia, lia e lia e falava de livros e de experiências de leitura, e aqueles seus olhos inquietos e risonhos descobriam em cada leitura partilhada mais um bocadinho daquilo que todos procuramos: o entendimento da nossa condição mortal e o contentamento com a parte que na vida nos cabe decidir…porque a outra…

A Elisa Margarido, professora de Geografia, mulher prática e também contemplativa, achava a mesma graça à floração da curgete, ao redemoinho atarantado do rouxinol à procura da parceira na primavera, à sinceridade nua das intenções e das palavras. A Elisa Margarido –  há que dizê-lo-  viu nos seus alunos o que muitos de nós- pais- ainda não víamos ou percebíamos porque o tempo dos pais e dos professores anda muitas vezes desencontrado.A Elisa ensinava a olhar para os jovens através do filtro do tempo em construção.O tempo de construção necessário a cada jovem .Um tempo em que, segundo ela, era preciso semear para depois colher, tal como a parábola bíblica do bom semeador que teimamos em não ouvir, cegos de egos, certezas e vaidades.Na verdade, o seu entendimento sobre a construção da identidade dos adolescentes era simples, verdadeiro e sábio e as suas observações surpreendiam-me pela franqueza e autenticidade.

Numa feira do livro da BECRE – onde ela marcava sempre presença- falámos  de livros, viagens e religião e ela, por esses dias, estava a ler uns preciosos contos Sufi, de Farid ud Din Attar, que eu não conhecia.Fez-se a promessa” Ana, vou-tos trazer!Tens que ler!”

E eu li, oh, se li!Li e reli, e compreendi nas palavras da personagem central desse conto uma das leis do universo : a morte, para os místicos,  é a visão da verdade suprema.

Elisa, a tua verdade, está aí.Diz tu ao derviche que eu também acredito que “Isto também passará!”e quando estivermos juntas trocaremos leituras.Até sempre.

Resultado de imagem para farid ud-din attar biografia

Anúncios

Read Full Post »

%d bloggers like this: